segunda-feira, 12 de julho de 2010

Enquanto as pálpebras não se fecham...


Os devaneios da madruga são os melhores. São aqueles sem compromisso, aqueles que podem ser paridos sem medo de serem arrancados com o fórceps brutal a que somos expostos enquanto temos a “companhia” indesejada das pessoas. Pensamentos inconseqüentes são tidos, refletidos e, o melhor de tudo, exauridos naquele período pequeno, porém precioso, que ocorre ao passarmos de acordados, para “dorminhados”.

Lembro-me de quando era mais moço. Toda noite, antes de dormir, eu me imaginava um herói do desenho “x-man” – adorava a animação. Eu tinha um pouco de cada um dos personagens, mais ou menos uma junção de todos os que faziam parte da extraordinária equipe do professor Charles Xavier. Sinto falta de conseguir desejar essas (bobagens?).

Hoje, talvez, se eu fosse criança - e tivesse a consciência de que crescer não vale a pena - confesso que faria de tudo para aproveitar cada segundo daquela fase mágica. Contudo, fico pensando: é possível uma criança ter consciência de que a infância é a melhor parte da vida? Acho que não! Afinal, seria muito cruel permitir a uma pessoinha de 7 ou 8 anos, saber que somente nessa época de sua estadia entre os vivos, sua felicidade seria pura, completa e, irremediavelmente, concreta.

Não quero que pensem, caros amigos leitores, que sou um depressivo em estágio pré-manicomial, apenas gostaria que notassem que sou um nostálgico em estágio pré-menstrual (?) (seria ótimo poder justificar todo esse aperto esquisito no peito com três letras: TPM).

A chuva cai lá fora, eu olho para o guarda-roupa e penso no que vestir amanhã se estiver chovendo; a Laila Dominique – minha gatinha – insiste em tentar dormir dentro do meu armário - é a terceira vez em meia hora que a tiro de lá. Minha mãe - exausta de jogar paciência no computador - dorme com a TV ligada no quarto. E eu aqui, acordado, pensando em como me livrar, sem grande estresse, das atividades que me aguardam amanhã no trabalho; pensando em como terminar a faculdade; pensando em como conhecer, em Curitiba, alguém interessante para se namorar. Enfim, pensando em como me tornar um super herói, com poderes reais, que sejam capazes de transformar 24 horas de um dia em 48, pois para conseguir levar uma vida social boa ao ponto de conhecer a pessoa exata, trabalhar e, ainda por cima, fazer um curso superior, só mesmo tendo dois dias dentro de um.

Realmente, fazendo uma avaliação dos pensamentos pré-sono – quero frisar que este texto é mais um desses pensamentos - consigo perceber que gosto muito mais das alucinações de herói que tinha na infância. Não que eu queira fugir da vida adulta - longe de mim ter medo – queria apenas que ela fugisse de mim, queria que a vida adulta, ao se deparar comigo, agisse com covardia.

É, não é por nada não, mas acho que está na hora de dormir. Boa noite.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Qual é mesmo o seu nome?


Regina Gremel, 56 anos e mulher por identificação. Desde que se conhece por gente sofre de reumatismo, doença chata, complicada, que requer constante tratamento. Diarista por condição (não conseguiu terminar o ensino fundamental por causa daquela velha história da inocência cruel das criancinhas) infelizmente nunca teve condições de pagar um plano de saúde, ou seja, é usuária do sistema único de saúde, nosso velho conhecido SUS.

Rosto familiar entre os médicos e enfermeiras da unidade de saúde Cajuru, bairro em que mora, há quase trinta anos convive com a rotina de consultas e exames, e mais consultas e mais exames. Ruiva, 1,77m de altura, calça jeans cós alto (aprendeu com a mãe que cós baixo deforma o corpo da mulher) sapato chanel e casaquinho de crochê, lá vai ela para sua consulta mensal. Sempre se sentiu muito grata pela gentileza com que é tratada no postinho (Regina sempre diz que não é acostumada a receber muitas gentilezas das pessoas).

Firmino Correia! Grita o médico, chamando o próximo paciente. Senhor Firmino Correia! De cabeça baixa, o rosto queimando de vergonha, levanta o senhor Firmino, ruivo, 1,77m de altura, calça jeans cós alto, sapato chanel e casaquinho de crochê. É nessa hora que as crianças na fila do “Zé Gotinha” zombam (Regina se recorda dos coleguinhas rindo dela na 7ª série) as mães olham torto, e o médico olha para dona Regina e, cordialmente, cumprimenta: “Bom dia, Seu Firmino”.

No dia oito de março deste ano, na cidade de Curitiba, o Secretario Estadual da Saúde, senhor Gilberto Martin, assinou uma resolução que regulamenta a possibilidade de pessoas transexuais serem chamadas por seu nome social no serviço público de saúde. A solenidade contou com a presença de travestis e transexuais que agradeceram pela oportunidade de ter um acesso mais digno ao sistema.

Considero a atitude um marco importante na luta pelos direitos humanos, mas não consigo não me perguntar qual foi o real motivo que levou a esse avanço, visto que desde 2004 o Ministério da Saúde já havia dado permissão e recomendação para tal processo. Talvez seja devido ao fato de ser ano eleitoral. Mas talvez seja uma ordem presidencial, tendo em vista que ninguém mais, ninguém menos que o nosso Presidente da República acessa qualquer serviço com o seu nome social (mudado até no RG). Afinal, quem é o dirigente mais popular de todos os tempos no Brasil? Luiz Inácio ou o Lula?

domingo, 23 de maio de 2010

Polemizar pra quê?


Desde que o PLC 122/2006, que define os crimes resultantes de preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero, entrou em discussão no Senado, muitos comentários e criticas infundadas têm sido feitas.

Há os que dizem que a lei cerceia a liberdade de expressão; contudo, vale ressaltar que mesmo a liberdade de expressão que nos é concedida tem limites, visto que ela não pode ser utilizada para discriminar qualquer ser humano.

Outros, cheios de moral religiosa, dizem pior, afirmam que a liberdade religiosa será reprimida e, por isso, atentam constantemente, através de seus parlamentares eleitos, contra o PLC. Será que não sabem que o Estado é laico? Ou seja, religião não deve, e sequer pode, interferir no que diz respeito aos direitos comuns. Sim! É direito comum ter uma religião ou não ter, obviamente se esse fato não excomungar – utilizemos esse verbo religioso por diversão – ninguém de seus direitos.

No Brasil, o relatório anual do GGB – Grupo Gay da Bahia – que desde 1980 lista os assassinatos de homossexuais no país, apontou, que em 2008, houve 55% mais crimes do gênero do que no ano anterior, 190 ante 122. Dessa maneira, o país tornou-se o mais homofóbico do mundo, seguido pelo México, que registrou 35 assassinatos na mesma época (é terrível saber que aqui, somente no estado do Paraná, em 2009, foram 25 pessoas mortas pelo fato de ter uma orientação sexual não heterossexual).

Normalmente, políticas públicas e leis são feitas e/ou propostas a partir da constatação de sua real necessidade (acredito que os números acima citados constataram bem) mas se não foram suficientes, não custa nada reafirmar com outras pesquisas. A homofobia não interfere somente no que tange ao bem estar físico dos cidadãos homossexuais, mas também no social, segundo a pesquisa de 2003, “Juventudes e Sexualidades”, da UNESCO, em média 40% de alunos do sexo masculino não gostariam de ter colegas de classe LGBT, e o pior é saber que os pais concordam com isso, cerca de 35% deles partilham da mesma opinião, e os principais argumentos para tais idéias giram em torno de questões religiosas.

Não é preciso dizer que quando um fator interfere negativamente nos direitos fundamentais do cidadão, é de suma importância revê-lo. Portanto, se as expressões religiosas são motivos que impedem seres humanos de se desenvolverem socialmente - preconceito na escola - elas devem ser revistas.

“A pessoa preconceituosa tende a partir do princípio de que ela própria é o modelo ideal de ser humano, condenando à exclusão social todos os que aparentemente se diferem dela. Um ‘cristão’, que pratique qualquer ato de repulsa contra outra pessoa, é um paradoxo”, afirma o Bispo Edir Macedo, líder evangélico religioso da Igreja Universal do Reino de Deus, maior da categoria no mundo, em texto publicado em seu blog pessoal. Podemos, assim, perceber incoerência dentro das próprias instituições religiosas.

Sabe-se que muitos já foram mortos na história por investidas de religiões fundamentalistas. Acredito ainda que a pluralidade étnica, racial, religiosa, enfim, cultural do nosso país, precisam ser levadas em consideração quando o assunto são os direitos humanos. Com isso, a comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, pede somente uma coisa: nem menos, nem mais, apenas direitos iguais.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Enquanto isso, no reino encantado do fundamentalismo religioso...


Demagogia! É disso que estamos falando, e somente quem nunca freqüentou um “templo” preconceituoso ou nunca assistiu na televisão um daqueles programas que atentam contra a dignidade humana, consegue, de consciência limpa, afirmar que jamais houve preconceito contra a comunidade LGBT nesses espaços.
“Devemos amar uns aos outros”, “somos todos irmãos”, “não temos preconceito contra homossexuais”. É realmente maravilhoso ouvir frases como essas – quando elas são verdadeiras, obviamente.
Há muitas manifestações contrárias à aprovação do PLC 122/2006. O principal argumento utilizado pelos opositores é a inconstitucionalidade do projeto.Para isso, alegam que com a aprovação do PLC a liberdade de expressão utilizada pelas religiões será cerceada (acredito que aqui é necessário uma pausa para contarmos até dez e respirarmos).
Recuperada a calma, rebatemos o exposto pelos fundamentalistas utilizando da mesma moeda. Portanto, senhoras e senhores, colocamos em pauta a inconstitucionalidade da igreja nessa discussão. Afinal, o Estado é laico, não possui ligação alguma com qualquer entidade religiosa, e definitivamente, alegar motivos religiosos para fomentar idéias negativas sobre o projeto é, no mínimo, falta de conhecimento da estrutura organizacional de nosso país.
São inúmeras as pesquisas baseadas em dados reais e não na bíblia – permitam-me utilizar aqui da minha liberdade de não ter crença religiosa - que demonstram explicitamente o porquê da necessidade de aprovação do PLC 122, tendo em vista que o grau de intolerância com lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais é – e sem medo de repetir palavras e empobrecer o texto – intolerável. Somente no Paraná 19 assassinatos em um ano; alguém com pleno controle de suas faculdades mentais não teme saber a estimativa nacional?
Contudo, povo brasileiro, não temamos, pois no reino encantado dos fundamentalistas (vide o site www.providaanapolis.org.br) ninguém é contra os homossexuais, mas sim contra a prática homossexual (alguém me explica por favor?).

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Soneto da primeira flecha do Cupido.


No Museu, coquetel, curiosidade
Olhos vêem somente o exterior
A resposta aos dezoito de idade
Ou somente o começo do horror?

Apaixona-se, distorce a verdade
Engana-se com o direito a louvor
Comete pecados da ansiedade
E suplica com os gritos de pavor

Não permita, oh deus tão poderoso
Nesse mundo um destino tão cruel
Lhe pede o coração que nessa vida

Embriaga-se na forte bebida
Chora sempre desejo odioso

Por amargar com o gosto do fel

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Azucrinando.


Rosangela Justino, mulher, psicóloga e curandeira. Alguns curam diabete, pedras nos rins, ou ainda aqueles outros que foram condenados às famosas “ites”, sinusite, rinite e bronquite, entretanto, coitados, doentes, flagelados mesmo, são os indivíduos que sofrem de homossexualismo.
É, meus caros, para essa espetacular “pajé das tribos urbanas”, o sufixo “ismo”, esse mesmo que conota doença, não caiu. Homossexualidade? Sufixo “dade”? Questão de gênero? 17 de maio de 1990? Dia em que a Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade do seu quadro de doenças mentais? Para nossa querida profissional, não valeu de nada, é balela. Talvez porque foi a saúde e não a psicologia quem retirou. Cá entre nós, acho que ela não sabe que o psicológico faz parte da saúde, tadinha.
Ela cura homossexuais, recebe dinheiro de pais e mães desesperados e cura crianças indefesas. Conselhos regionais e federais de psicologia não existem para a “toda poderosa”. Ela deve fazer também surdo ouvir, cego ver, coxo andar. Deveria abrir uma igreja.
A Unesco realizou uma pesquisa em 14 capitais brasileiras, 241 instituições de ensino, mais de 16 mil alunos entrevistados e encontrou muitas “rosangelas justinos” por aí. 40 por cento dos meninos entrevistados detestariam ter colegas homossexuais em sua sala de aula, alguns admitiram jogar ovos em alunos afeminados, bater para que eles parem de ir à escola. 35 por cento dos pais têm medo de que seus filhos convivam com pessoas de orientação não heterossexual. Enfim, mais de 100 homossexuais são assassinados por ano em nosso país pelo simples fato de serem diferente. Até onde sei, ser diferente não é ser errado, é ser apenas diferente, afinal, se diferente fosse errado, diferente se chamaria errado e não diferente. Lógico, não? Não queria fugir da nossa realidade, mas preciso dizer que um jovem gay, norte americano, segundo o Departamento de Educação de Massachusetts, ouve comentários anti-gay cerca de 25 vezes ao dia, mais de um por hora, coisa pouca, né?
Senhoras e Senhores, surpreendam-se, pois nossa querida psicóloga acima citada, nunca soube de nada disso. A resolução do Conselho Federal de Psicologia, lá em 1999, no artigo 1º, parágrafo único: “Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”, foi por ela, ignorada.
Desta maneira, eu me pergunto: se eu, embriagado, bato meu carro e mato alguém, sofrerei a pena por esse crime, certo? Exceto alguns deputados por aí dirigindo a 190km/h...mas esse já é assunto para outro artigo. A Rô, querida, foi julgada pelo Conselho responsável, contudo, foi necessário que mais de 200 organizações que atuam na defesa dos direitos humanos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, entrassem com ações solicitando uma atitude por parte das autoridades, caso contrário, nem o julgamento sairia. A pena imputada a ela foi uma repreensão pública. Mais ou menos como aquela que nossas mães nos dão na frente dos coleguinhas. E vocês, ainda acham que eu discordo de Rosangela? Pois estão totalmente enganados. Depois disso tudo, quero mais é enfrentar a fila do INSS e me “encostar”, tendo em vista que sofro de uma maligna e poderosa doença.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Apenas mais um dramalhão fantástico e mexicano.


Há em nós, seres humanos, uma negligência com os sentimentos alheios fenomenal. Talvez esse fenômeno negativo se dê por conta do tal estresse da vida moderna ou do individualismo capitalista atual, enfim, o motivo eu não sei, mas que existe, caros amigos, existe.
Certa vez um garoto, com “catarata” nos “olhos sentimentais”, “míope do coração”, se colocou na terrível situação de Hitler das relações pessoais. Ditador, Mussolini piorado, ele exigia, confrontava e oprimia os sentimentos que a si não cabiam.
Avassaladora foi a vez que, sem perceber, se apaixonou. Montou um exército de dor, uma maldição dilaceradora e auto-destrutiva. O pior - e isso eu afirmo sem medo - foi descobrir que para toda ação há uma reação. É, senhoras e senhores, ele foi derrotado, ele sofreu. Em um sábado gelado de inverno ele viu, tentou fechar os olhos, mas não lhe foi permitido – as forças da natureza realmente são honestas, ou melhor, o mundo realmente dá muitas voltas.
Permitam-me contar o fato ocorrido. O garoto, sentiu toda a miséria que havia causado, percebeu o quão egoísta havia sido e, além disso, se encontrou de mãos atadas. Um reflexo da dor foi colocado à sua frente. Simples assim, ele morreu.
Aqui jaz um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones, girava o mundo. Mas acabou, pois está morto do coração.